É no limiar entre a descrença e a esperança que a vida se faz, se desfaz e se refaz. Em menos de quatro horas a gente pode viver mais, morrer mais, renascer mais ou nada disso: Uma criança que agradece pelas aulas de História que a incentivaram a querer ir para a escola, disputa o restante de minhas energias com a frase " Um moleque desses devia ter sido abortado"... A disputa é interrompida pela menina que diz que na escola é o único lugar onde ela se sente bem, mas que logo encontra como adversária a frase "Se for pra agredir um aluno desses é melhor matar"
Morte e vida, vida e sabe-se lá o que mais. Nenhuma delas ganha, nenhuma perde. Nada acontece e acontece tudo.
E continuo no limiar, sob a árvore , entremorto, sobrevivo para ouvir as mortes e me armar de vidas:
Quando descemos das árvores, cantávamos canções pra criar coragem e espantar o medo. Milhões de anos depois descemos da vida cantando o medo pra enganar a morte. Sobrevivemos. Esse se tornou nosso charme, esse flertar com a morte. Nos tornamos esses maravilhosos cantadores enganadores da morte... E cá estamos: Não muito sãos, tampouco salvos... Mas cá estamos.
Perfume Azul do Sol - Deusa Sombria
sexta-feira, 14 de julho de 2017
O copo do dia...
Qual a sua sede hoje? Sede de mudança? Sede de esperança? Sede de saudade ou de vingança?
Qual sua sede hoje? Sede de fugir ou de ficar?
Sede de secar ou de se afogar?
Salgada ou doce? Qual a água que lavaria sua alma? A do copo meio cheio ou a do copo meio vazio? Sede de tempestade ou sede de calma?
Pelo que sua garganta pede? Sede de cerveja? Sede de ser visto? De ser ouvido? De ser cantado? Ou é aquela sede de ser outra coisa?
Sede de uma água que o coração nunca bebeu? Sede de algo que não se pode beber? Quem não tem sede pra matar, de sede já morreu Aos vivos: Ter sede é querer matar pra não morrer...
Era chegada a hora da última lágrima sair. Já pressentia sua aparição e estava curioso para ver qual seria sua cor.
Me posicionei em frente ao espelho do banheiro, como havia feito das outras vezes. Antes deixava que corressem no escuro, mas conforme foram ficando mais raras, preferia vê-las diante do espelho.
As mãos apoiadas nas bordas da pia, os olhos bem abertos encarando olhos bem abertos. Lá vem ela.
Custa a sair, parece não querer dar o braço a torcer. Parece não querer admitir que está encerrada a era das lágrimas. Mais uma que insiste em fingir ser algo do mundo.
Essa finge ser como os orelhões que insistem em ocupar as calçadas, não querendo admitir que as crianças que passam por eles nem sabem pra que servem.
Se equilibra na pálpebra, fingindo ser um paraquedista. Olha para trás esperando por companheiras. Finge ser como a caneca que o mendigo estende, esperançosa de que receberá, em algum momento da tarde toda, uma moeda.
Ai vem ela. É transparente, sem cor. Um pouco mais redonda que as outras. Agarrou-se aos cílios. Orgulhosa como todas as outras. Mas nem os cílios podem mais ajudá-la, então ela solta. Não tem mais a paciência de escorrer pelas bochechas, ou quer apenas ser diferente. Pula direto para meu lábio inferior, talvez pedindo uma última palavra que a defendesse. Fingindo ser criança.
Mas o lábio inferior também não pode mais ajudá-la. Nem um adeus. Ela então se despede do rosto, que nunca havia visto mas que, em nome das outras que por ali passaram e das que nunca mais passarão, deixa sua lembrança. Fingindo ser uma palavra, uma última palavra. Pretensiosa. Mas é muda.
Cai sobre uma das mãos, agora já sem tanta esperança. Admitiu ser a última e estar perdida. Enfia-se envergonhada entre o indicador e o médio. Fingindo ser tempo. Parece me dar a chance de segurá-la, como se eu devesse guardá-la numa caixinha de recordações. Mas bem como o tempo, escorre por entre os dedos.
Reaparece no branco da pia e aproveita para fazer seu movimento final, pois lembrou ser lágrima. Deslizou ziguezagueando em direção ao ralo reassumindo sua característica de lágrima, sem querer ser mais nada. Desistiu, e desapareceu no ralo, virou as costas para tudo aquilo que passou. Fingindo ser vida.
Engenheiros do Hawaii - A conquista do espelho
domingo, 9 de abril de 2017
Não
Gosto de pensar que o primeiro significado que
aprendemos é o da palavra não.
Provavelmente, a primeira palavra a passar pela
nossa mente.
Depois de aprender seu significado, aprendemos a
dizê-la, e é só a partir daí que nos fazemos no mundo: Dizemos "não"
com propriedade!
Rebeldemente desafiamos as autoridades que nem sabemos que são
autoridades, e essa palavra nos ensina a nos defender, a defender quem queremos
ser. Pronto! Já bem cedo aprendemos seu significado, aprendemos a ser não. Significado que nos acompanha vida afora, nos guia na rebeldia até o extremo:
Não queremos nada, queremos apenas ser não!
Mas pode ser que em algum momento nos convençam que
ser não é errado.
E aceitamos: É a hora de tentar sozinho, de tentar ser sim.
Nos achamos confortáveis o suficiente pra viver e
ser sem dizer não. Sim! Trocamos ser não pelo ser sim. Mas o sim não tem aquela
força, o sim é palavra, o não é que era significado...ser sim é aceitar tudo,
mas nós não nascemos pra aceitar tudo. Há quem prefira ficar ali, sendo sim o
tempo todo...afinal não sabe o que quer ser.
Aos que dizem não, o significado retorna. Sem
remorso... Percebendo nosso fracasso em ser sim, o não volta pra nos tirar da
prisão, afinal, é a palavra que sempre defende quem somos, como que defendesse
um filho que viu nascer, o que não deixa de ser verdade.
É o não que conhece o
caminho da liberdade.
É o não da antiga rebeldia, agora resistência. E
assim reaprendemos.
Infalível, é essa palavra, sem gênero, sem cor, sem
dor, sem pudor e sem medo que, ao fim da batalha - quando desejarmos ficar só
mais um pouquinho - estará ironicamente, com toda sua intransigente força, ao
nosso lado.
Provavelmente, a última palavra que passará pela
nossa mente.