domingo, 29 de março de 2020

Da série consciência de classe, parte 3:

Lição do ano: Quem realmente faz a sociedade funcionar x Quem vive da exploração do trabalho do outro.

2020 cada vez mais parecendo um roteiro minuciosamente escrito pra fazer sentido no absurdo. Uma parceria transcedental entre filósofos que, entediados da vida no além, se reuniram pra escrever. Tem de tudo: Do racionalismo místico egipcio à objetividade oriental, da dramacidade grega

Mas enfim, tudo isso pra dizer que o ponto interessante agora é que em meio a crise do Covid-19 nos vemos em meio a um conflito ideológico importante: Sobreviver do trabalho voltando à normalidade e arriscando nossa saúde x parar tudo e priorizar a saúde ainda que os efeitos prejudiquem a vida material. Tenho acompanhados alguns debates, calorosos como aqueles que aconteciam na época da eleição, e percebi que há um argumento recorrentemente usado pelos que defendem que "o país não pode parar": Mas se o povo não for trabalhar, vai morrer de fome, dizem eles.

Ora, de fato isso é uma possibilidade, mas é possível trucar: E se não deixassemos que morressem de fome. Um pensamento básico de humanidade, mas que soa estranho e utópico, dado nosso extremo grau de imersão na ideologia do capital: de que só é possível sobreviver nesse mundo se trabalhar e ganhar dinheiro pra comprar o de comer.
Mas se martelamos nesse pensamento, refazendo essa pergunta, a coisa vai ficando menos absurda de se pensar. Quer ver?

E se a gente não deixasse as pessoas perto de nós morrer de fome? Bem, se esse fosse nosso valor primeiro, tentariamos garantir que o básico chegasse a quem precisa. Começariamos com doações aqui e acolá, depois pensariamos em centralizar doações de forma coletiva e, quem sabe, teriamos uma rede de ajuda local a quem precisasse do básico.

Mas e se a gente não deixasse as pessoas perto de nós morrer de fome?
Bem, talvez agora com esse básico, as pessoas considerariam ficar em quarentena por esses tempos até a poeira baixar. Tendo essa garantia,

É tenso, não? Mas o pior nem é esse embate. Talvez o mais crítico seja perceber que 1) realmente somos uma classe diferente daqueles que são os "modelos de sucesso" no capitalismo: estamos nas mãos deles e, no fim das contas, eles têm poder sobre nossa vida e morte - nos obrigando a trabalhar para eles ou nos deixando sem meios de sobrevivência (dentro do script do jogo). 2) Realmente nos ameaçam com essa possibilidade e, além disso, criam o pânico que nos faz imaginar que a "quebra da economia" será ruim pra todos. Mas escondem de nós o fato de que a "quebra da economia" significaria a o xeque-mate no modelo de exploração sobre o qual eles se apoiam. 3) Realmente nossa classe operária tem poder de acabar com tal sistema de exploração e puxar o tapete daqueles que nos exploram, mas não temos organização, coragem, unidade e nem consciência o suficiente para fazer isso.

Por fim, pra não ficar só no muro de lamentações, a ironia da situação nos mostra possibilidades. É a oportunidade que temos de perceber que podemos viver em rede de solidariedade - não no sentido piegas e de mea culpa burguês, mas no sentido de que se eu tenho e posso ajudar o outro, eu o faria isso para garantir sua sobrevivência enquanto um de "nós". Em outras palavras, é a chance de entendermos que o veneno para a desigualdade e a perversidade do macrocapital é, justamente, construir uma base de ajuda e lutar pela sobrevivência do outro, daquele que está ao meu lado e foi ferido em combate.

Devaneios da quarentena? talvez... Mas reflexões importantes nesses momentos em que fica mais que explicito o quanto estamos desamparados, explorados e que nossa vida não importa nada em um sistema que centra seu valor primeiro no econômico.

Se depois dessa aula prática ainda restarem dúvidas de "qual lado estou?"... realmente, mais que interpretação de texto, nosso maior desafio cognitivo contemporâneo é o "não quero aceitar pra não ser contrariado" (também conhecido pelos mais antigos como "cabeça dura" ou pelos psi como "egocentrismo")
Olha que oportunidade para finalmente entendermos na prática QUEM PRODUZ A RIQUEZA DESSE PAÍS E QUEM SÃO OS PARASITAS!
Vazou a informação de que o povo tem poder de acabar com esse sistema exploratório, mas que antes precisa desatar um nó que o impede: Ainda achamos que a única forma possível de sobreviver é o cada um por si, cada um correndo atrás do seu... quem dera tivéssemos agora o entendimento de que podemos sobreviver coletivamente e com ajuda mútua. Teríamos a faca e o queijo na mão para um xeque-mate histórico.


(Meme do Facebook em 30-03-2020, aliás..décimo dia de quarentena por conta do Corona Vírus.)