sexta-feira, 2 de junho de 2017

A última lágrima


Era chegada a hora da última lágrima sair. Já pressentia sua aparição e estava curioso para ver qual seria sua cor.


Me posicionei em frente ao espelho do banheiro, como havia feito das outras vezes. Antes deixava que corressem no escuro, mas conforme foram ficando mais raras, preferia vê-las diante do espelho.


As mãos apoiadas nas bordas da pia, os olhos bem abertos encarando olhos bem abertos. Lá vem ela.
Custa a sair, parece não querer dar o braço a torcer. Parece não querer admitir que está encerrada a era das lágrimas. Mais uma que insiste em fingir ser algo do mundo.

Essa finge ser como os orelhões que insistem em ocupar as calçadas, não querendo admitir que as crianças que passam por eles nem sabem pra que servem.

Se equilibra na pálpebra, fingindo ser um paraquedista. Olha para trás esperando por companheiras. Finge ser como a caneca que o mendigo estende, esperançosa de que receberá, em algum momento da tarde toda, uma moeda. 

Ai vem ela. É transparente, sem cor. Um pouco mais redonda que as outras. Agarrou-se aos cílios. Orgulhosa como todas as outras. Mas nem os cílios podem mais ajudá-la, então ela solta. Não tem mais a paciência de escorrer pelas bochechas, ou quer apenas ser diferente. Pula direto para meu lábio inferior, talvez pedindo uma última palavra que a defendesse. Fingindo ser criança.

Mas o lábio inferior também não pode mais ajudá-la. Nem um adeus. Ela então se despede do rosto, que nunca havia visto mas que, em nome das outras que por ali passaram e das que nunca mais passarão, deixa sua lembrança. Fingindo ser uma palavra, uma última palavra. Pretensiosa. Mas é muda.

Cai sobre uma das mãos, agora já sem tanta esperança. Admitiu ser a última e estar perdida. Enfia-se envergonhada entre o indicador e o médio. Fingindo ser tempo. Parece me dar a chance de segurá-la, como se eu devesse guardá-la numa caixinha de recordações. Mas bem como o tempo, escorre por entre os dedos.

Reaparece no branco da pia e aproveita para fazer seu movimento final, pois lembrou ser lágrima. Deslizou ziguezagueando em direção ao ralo reassumindo sua característica de lágrima, sem querer ser mais nada. Desistiu, e desapareceu no ralo, virou as costas para tudo aquilo que passou. Fingindo ser vida.

Engenheiros do Hawaii - A conquista do espelho